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11/12/2016 às 12h03

Gordura pode ser combustível de metástase do câncer, diz estudo

Saúde
Gordura pode ser combustível de metástase do câncer, diz estudo

Cientistas espanhóis fizeram duas descobertas que podem revolucionar o tratamento contra o câncer. Eles encontraram a proteína responsável pela metástase, que é o processo de proliferação de um tumor no corpo. Outro grande achado é o possível combustível que desencadeia essa ação: a gordura.

A proteína CD36 foi encontrada pelos cientistas primeiramente em células cancerígenas de um câncer de boca. Ela ainda foi identificada em outros tumores, como melanoma (pele) e câncer de mama, bexiga e pulmão.

A descoberta foi feita por um grupo de cientistas do Instituto para Pesquisa Biomédicas, em Barcelona. Nas pesquisas, cientistas adicionaram a proteína CD36 a células tumorais que não produziam metástase. O resulto disso foi a proliferação do câncer para outras regiões do corpo. Isso serviu como prova de que a proteína é essencial no processo de metástase.

O próximo passo foi entender como a CD36 propagava os tumores, já que células normais se autodestroem quando deixam a região em que vivem. Como estão em busca de uma nova área do corpo, as células cancerígenas estão em uma batalha frequente contra o organismo. Por isso, consomem gordura, material essencial para a produção de energia.

É nessa parte do processo que entra o trabalho da proteína CD36. Ela ajuda as células cancerígenas a pegar a gordura do ambiente. Com tanta energia acumulada, elas então conseguem ultrapassar as barreiras criadas pelo corpo e atacar vários órgãos.

“Embora não tenhamos ainda testado isso em todos os tipos de tumores, podemos afirmar que CD36 é um marcador geral de células metastáticas, o primeiro que eu sei que é específico para metástase”, disse Salvador Aznar Benitah, um dos autores do estudo, em entrevista para o site Science Daily.

Dos anticorpos às dietas alimentares

Os pesquisadores tentaram encontrar uma maneira de interromper o transporte da gordura. Para isso, analisaram os anticorpos da CD36 e encontraram dois capazes de reconhecer e bloquear a proteína.

Em testes feitos em ratos de laboratório, os cientistas notaram que eles foram capazes de inibir a metástase por completo em 20% dos casos. No restante, a quantidade de tumores e os seus tamanhos foram reduzidos em 80%. Os anticorpos, porém, não afetaram o desenvolvimento de tumores primários.

Uma ótima notícia é que esse tratamento não apresentou efeitos colaterais — que são bastante pesados em quimioterapia e radioterapia. Por isso, é grande a possibilidade de testes humanos serem feitos.

Os cientistas também descobriram que pode haver outra maneira de interromper a metástase. Na pesquisa com  ratos, eles notaram que os animais que receberam células tumorais e continuaram com uma dieta normal apresentaram metástase em 30% dos casos. Já 80% dos ratos que foram alimentados com uma dieta 15% mais rica em gorduras tiveram mais tumores e de maior tamanho nos linfonodos e pulmões.

De acordo com os cientistas, a gordura mais perigosa é o ácido palmítico. Principal componente do óleo de palma, ele foi capaz de aumentar a frequência de metástase de 50% a 100% em ratos com células tumorais.

“Mais estudos são necessários para desvendar essa intrigante relação, sobretudo porque os países industrializados estão registrando um aumento alarmante no consumo de gorduras saturadas e de açúcar”, adverte Benitah no estudo. “Gordura é necessária para o funcionamento do corpo, mas a ingestão descontrolada pode ter um efeito sobre a saúde.”

A equipe espanhola já solicitou a patente dos resultados. Agora, os cientistas querem realizar um estudo clínico com mil pessoas que têm câncer. O objetivo é encontrar os lipídios no sangue desses pacientes e analisá-los para entender se eles têm alguma ligação com a metástase.

Ernst Lengyel, oncologista da Universidade de Chicago, nos EUA, disse à revista Nature que ainda é muito cedo para dizer que é preciso evitar alimentos gordurosos. Segundo ele, pessoas com câncer geralmente precisam de uma dieta de alta energia e, por isso, afirmar que a gordura deve ser retirada de sua alimentação poderia ser perigoso.